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Amor De Ano Novo

Amor de Ano Novo

(…) Eu nunca vou entender porque a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender porque você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que você quer, mas as nossas exatidões não funcionam numa conta de mais…”, Tati Bernardi.

 

DEZEMBRO DE 2034.

– Mãe, eu preciso desligar! O avião já vai decolar, ok?! – Sussurrei ao telefone, na intenção de não ser percebida pela aeromoça que passava pelo corredor.

– Certo, meu amor. Estaremos no aeroporto às 11h! – Disse minha mãe pela quarta vez em menos de 10 minutos. Abafei uma risada.

– Beijo! Te amo! – Falei e encerrei nossa ligação, me apressando em colocar o celular em modo avião.

Eu mal acreditava que passaria o ano novo ao lado de toda a minha família (com isso estou incluindo os melhores amigos dos meus pais e seus filhos, que sempre considerei família) depois de passar 6 meses sem vê-los. Não imaginava o tamanho da saudade que estava sentindo deles até a ficha de que nós estaríamos nos reencontrando em algumas horas caísse.

Fazer intercâmbio sempre esteve nos meus planos. E quando a host sister da minha mãe afirmou, feliz da vida, que me receberia em sua casa para uma temporada, o assunto praticamente não foi discutido. A minha ida já era certa!

Mas meu coração se quebrou quando eu o vi após a notícia de que estaria viajando em algumas semanas. E, simplesmente, a ideia de morar um semestre em Portland já não me agradava mais. Como eu iria simplesmente largar tudo e deixar o que eu mais amava no Brasil?

Theo e eu estávamos namorando há quase um ano. E foi ao contar para ele sobre a viagem que eu decidi que não poderia mais me jogar no outro lado do hemisfério. Só de pensar em ficar sem seus carinhos, seus elogios, seus beijos… Na verdade, eu não conseguia nem imaginar a vida sem Theo ao meu lado após saber como era tê-lo comigo.

Eu estava presa entre dois dos meus maiores sonhos. E tomar qualquer decisão, obviamente, não estava sendo nem um pouco fácil.

Como se o meu mundo já não estivesse desmoronando o suficiente, a vida parecia querer destruir não só uma parte dele, mas tudo!

 

           

FlashBack On:

– Theo, eu já disse! Não vou e pronto. – Berrei para o garoto que passava as mãos pelos cabelos loiros agoniadamente (coisa que ele só fazia quando estava nervoso, irritado ou ansioso).

            Ele suspirou e sentou na minha cama. Pediu que eu me aproximasse e me puxou para sentar em seu colo. Beijou meu pescoço lentamente e me aconchegou em seu peitoral. Theo falou:

            – Você sabe que eu te amo. Sabe que é a minha princesa. E sabe que é com quem eu quero passar o resto da minha vida… Então, meu amor, não importa o que aconteça, nós sempre, sempre vamos encontrar o caminho de volta para o outro. – Ele me beijou delicadamente.

            – Promete?

            – Prometo.

******

            Depois daquela conversa, meu coração amoleceu um pouco. Mas a decisão de não fazer intercâmbio continuava forte. O que Theo queria depois de falar tudo aquilo para mim? Era a certeza de que eu precisava para dar o meu veredito e falar para os meus pais que não estaria mais viajando.

            Mas, naquela noite, eu não pensaria em nada que envolvesse aquela viagem.

            Nossa festa em comemoração a chegada das férias de julho seria na casa de uma das minhas amigas, Ellen. Foi extremamente bem planejada. Com direito a uma vaquinha para decorações, DJ, comidas e bebidas.

Duda, minha melhor amiga, e eu estávamos na casa dela nos arrumando para a noitada. Theo passaria com seu pai nos buscar em 15 minutos e eu ainda estava sem metade da minha maquiagem.

            – Acelera aí, Linda! Tio Phin vai chegar com o Theo em pouco tempo! – Duda reclamou enquanto terminava de colocar seu batom.

            – Ai! Calma, Maria Eduarda! Pelo menos eu já estou vestida!

            Terminei minha maquiagem em tempo recorde e calcei os saltos assaltados do armário da minha mãe. Tia Jô, mãe de Duda, entrou no quarto nos avisando que Tio Phin e Theo já estavam na portaria nos aguardando.

            – Vocês estão incríveis! – Ela sorriu. – Agora vão, vão, vão! Theo já deve estar tendo um faniquito sem ver a Linda.

            Nós demos uma risada alta e após nos certificarmos de que não havíamos esquecido de nada, beijamos a bochecha de Tia Jô e entramos no elevador.

            Theo estava parado no hall da portaria. Quando me viu, jurei que seus olhos se arregalaram por um instante. Duda soltou uma risadinha, mas logo se recompôs. Meu namorado se aproximou de mim e beijou minha bochecha. O que eu achei estranho. Ele parecia estar distante, quase frio. Tentei captar seu olhar, mas ele o desviou e seguiu o caminho até o carro de seu pai.

            Tio Phin batucava os dedos na direção do carro com o ritmo da música que escutávamos. Quando entramos no carro, ele abriu um sorriso enorme:

            – Filho, tome cuidado! Essas duas aí vão roubar todos os olhares dessa festa.

            – Não se preocupa, pai. Tio Bruno me mata se alguém encostar na Duda. E minha garota… Bem… Acho que os marmanjos sabem o que acontece caso tentem alguma coisa com ela. – Foi a resposta de Theo. Seus olhos brilharam quando ele se referiu a mim como “minha garota”.

            Fomos conversando com Tio Phin durante todo o percurso. Mas Theo ficou calado o tempo todo. Respondia apenas quando a conversa se dirigia a ele.

            Chegamos ao prédio da Ellen e descemos do carro após ouvir um sermão de Tio Phin falando tudo o que não podíamos fazer. Esperei Theo entrelaçar seus dedos nos meus como sempre fazia, mas fiquei desapontada quando percebi que entraria na festa sozinha.

            Cumprimentamos todos os nossos amigos e logo Duda me puxou para dançarmos ao lado da galera que já estava na pista de dança.

            Procurei Theo entre a multidão e o vi sentado em um dos pufes coloridos que ocupavam o salão de festas. Nossos olhares se cruzaram e ele logo saiu de onde estava quando percebeu que eu ia a seu encontro.

            Por que ele estava fazendo isso? Por que estava tão frio, tão distante?

            Acabei seguindo seus passos até encontrá-lo no jardim do edifício, onde não havia ninguém. Apenas eu e ele.

            – Theo? – Chamei baixinho ao me aproximar dele. Mas não obtive resposta alguma. – Mô, o que está acontecendo? Vamos conversar! Estou ficando preocupada.

            Ele continuou calado, apenas olhando os carros passando na rua. Comecei a me irritar. Que joguinho infernal era aquele?

            – Dá para me responder? – Reclamei enquanto cruzava os braços.

            Meu namorado finalmente virou seu olhar para mim. Suspirou e passou as mãos pelo cabelo. Respirei bem fundo. Coisa boa não era…

            – Não dá mais, Linda. – Ele começou. Mas eu não entendia.

            – Não dá mais o quê?- Perguntei. Meu coração, agora, batendo loucamente, sem um compasso certo.

            – Nós… Não faça as coisas mais difíceis do que já são. Você está entendendo aonde quero chegar.

            – Não estou. Eu juro! – As lágrimas começaram a brotar nos meus olhos. – Me explica o que está acontecendo! Por favor.

            – Eu quero terminar, Linda.

            E foi assim que eu vi o resto do meu mundo desmoronando.

 

******

Ao chegar em casa, naquela noite fatídica, a primeira coisa que fiz foi entrar no quarto da minha mãe, segurando o choro, e perguntar quando poderíamos comprar minhas passagens para Portland.

            Ela, morrendo de sono, apenas disse que resolveríamos aquilo na manhã seguinte. Mas ao notar que minha voz estava embargada ao desejá-la uma boa noite, Dra. Sophie levantou de sua cama, onde meu pai estava no décimo sono, e me seguiu para fora do quarto.

            Fomos para a sala e ela ligou a luz, apenas para confirmar o meu rosto sujo de máscara para cílios e restos de lágrimas.

            O rosto de mamãe foi dominado por uma preocupação sem fim e quando ela levou uma das mãos para tocar minha bochecha, caí aos prantos e me joguei em seu colo.

            – Calma, meu amor… Shh… Shh… Mamãe já está aqui. – Ela sussurrava, acariciando meu cabelo devagar. – Respire fundo, Linda.

            Segui seus comandos e logo fui me acalmando. Após um último soluço, ela perguntou o que tinha acontecido. E eu contei tudo.

            Minha mãe estava tão confusa quanto eu.

            – Filha, alguma peça não está encaixando aí. Theo sempre foi apaixonado por você! Ele nunca precisou falar nada. Sempre esteve nos olhos dele.

            – Mas aparentemente ele é apenas um bom ator, mãe.

            Ela me puxou para deitar em seu colo.

            – Eu acredito que as coisas sempre se encaixam alguma hora, Linda. Seu pai e eu temos nossa história, se você quiser uma prova disso. – Ela afirmou, sorrindo levemente ao mencionar papai. – Mas, agora, deixe que a dor passe. Deixe o coração sangrar. Mas eu sou médica, quando chegar a hora, estarei aqui para parar esse sangramento.

FlashBack Off.

Acordei de uma vez com uma aeromoça me chamando.

I’m sorry, miss. But we’ve already landed in Orlando. (Me desculpe, senhorita. Mas já pousamos em Orlando.) – Ela disse, com um pequeno sorriso.

Agradeci e guardei meus pertences na minha mochila. Calcei as botas rapidamente e amarrei o casaco na cintura. Olhei o horário no meu celular (11h13). Meus pais já deveriam estar me esperando.

Desci no portão de desembarque sem pegar minhas malas, já que no aeroporto de Orlando as malas são devolvidas no saguão.

Respirei fundo e comecei a procurar meus pais. Até que ouvi um berro em português:

– LINDINHA!

Nicholas, meu irmão mais velho, correu em minha direção e me deu um abraço tão forte que tirou meus pés do chão. Ele estava quase me soltando, mas eu não deixei. Comecei a chorar com a cabeça escondida em seu peito. Respirei fundo e senti o cheiro do meu irmão. Tão familiar e tão reconfortante.

Senti alguém se agarrar na minha perna. Olhamos para baixo e vimos Bella, nossa irmã mais nova, chorando conosco.

Peguei-a em meu colo e enchi seu rosto de beijos.

– Oi, pirralha! Senti saudades, também. – Sussurrei quando ela deitou a cabeça em meu ombro.

Ouvi um soluço conhecido. E levantei a cabeça para ver minha mãe agarrada ao meu pai, chorando copiosamente.

Coloquei Bella nos braços de Nicholas e olhei os dois parados a minha frente.

Alexander e Sophie Ferraz eram, definitivamente, meu casal favorito. Os anos passaram, mas eles ainda pareciam um casal de namorados. Tão apaixonados como um dia eu e ele fomos.

– Oi, filha. – Falou papai estendendo a mão para mim.

Lancei-me em seu colo, enrolando as pernas em sua cintura. Deitei a cabeça em seu ombro e chorei ao lado da saudade que aos poucos se despedia de mim.

– Eu te amo, pai. – Eu disse, baixinho.

– Eu também te amo, minha filha. Muito!

Dr. Alexander me colocou no chão e se apressou em segurar a cintura de minha mãe quando notou que as pernas da mesma começaram a fraquejar.

Mamãe me abraçou com toda a força que tinha e nós seguimos derramando nossas lágrimas juntas. Ela logo implorou:

– Promete para a mamãe que nunca mais vai passar tanto tempo longe da gente!

Balancei a cabeça freneticamente, confirmando seu pedido. Eu jamais iria para longe da minha família outra vez.

 

******

Chegamos à casa/casarão que meus pais e meus tios haviam alugado para todos nós (4 famílias, 16 pessoas). Fui recebida por abraços e lágrimas. Quando nos abraçamos, Duda e eu começamos a pular como duas crianças. Eu não poderia estar mais feliz.

Olhei para os lados, procurando mais um rosto ali. Mas não o encontrei.

Duda notou que alguma coisa estava errada, mas não perguntou.

Papai já havia subido para colocar minhas malas no quarto, e quando retornou parecia estar tenso. Beijou minha testa e disse que o quarto onde eu estaria com Duda e Bella era o segundo à direita.

Duda havia sumido antes que eu pudesse pedir para ela me acompanhar. Mas eu estava tão cansada e desejava trocar de roupa urgentemente. Subi sozinha, mesmo.

Abri a porta do quarto e me arrependi no mesmo segundo. Comecei a pedir inúmeras desculpas e antes que eu pudesse explicar que achava que aquele quarto era o meu, ele falou:

– Não. Esse quarto realmente é o seu.

– Então, você se ofende se eu perguntar o que faz no meu quarto? – Perguntei, colocando uma expressão fria em meu rosto.

– Vim botar as cartas na mesa e consertar algumas coisas. – Theo respondeu, levantando da cama, onde estava deitado.

– Olha, eu não quero conversar! Eu acabei de passar horas dentro de um avião e estou muito cansada. Cansada demais para ouvir seus dramas! – Eu poderia ter exagerado, mas era o único jeito que eu sabia me defender.

Theo se aproximou e fechou a porta atrás de mim, me encostando na mesma e me prendendo com seu corpo.

Ele olhou cada detalhe do meu rosto e levou uma das mãos para erguer meu queixo. Iniciou uma trilha de beijos em meu pescoço, arrancando suspiros meus antes de, finalmente, colar seus lábios nos meus.

Fui me entregando ao beijo sem nem perceber. Mas logo minha razão voltou ao normal, e eu o empurrei.

– O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Berrei levando as mãos para tocar minha boca.

– Linda, eu preciso que você me escute agora! Não precisamos conversar. Você não precisa falar nada, apenas me escutar. – Ele pediu levando as mãos aos cabelos. Como eu sentia falta de observar essa mania dele…

Seus braços pareciam estar ainda mais fortes através da camisa que ele usava. Sacudi a cabeça, falando em seguida:

– Não quero te ouvir, Theo…

– Eu sei que não quer. Mas também sei que você é orgulhosa demais. Então, vamos fazer um trato: Você me escuta e eu te deixo em paz. – Ele falou, bastante nervoso.

Passei alguns minutos calada. Pensando no que deveria fazer. Acabei assentindo com a cabeça.

– Eu não podia te fazer abrir mão do seu sonho, Linda. Lembro que, desde os nossos 10 anos de idade, você sempre falava sobre o intercâmbio que um dia faria. E eu não podia deixar você desistir disso por minha causa. – Ele respirou fundo e, quando viu que eu não iria recuar, pegou minhas mãos nas suas.

Logo continuou:

– Então, eu sabia o que precisava fazer. Tinha plena noção que estaria me destruindo por dentro e te magoando profundamente. Mas eu simplesmente não iria me perdoar se você não realizasse um sonho tão desejado. Nós terminamos, não porque o amor havia acabado. Longe disso… Eu tinha certeza de que te amava mais a cada dia que passava. Nós terminamos porque eu não iria permitir você se arrepender, um dia, de não ter viajado. – Theo deu uma risada nervosa. – Eu te amo, meu amor. Eu te amo desde o dia em que coloquei meus olhos em você pela primeira vez. E, se você estiver disposta, eu prometo que vou passar o resto da minha vida te provando isso…

E após beijar meus lábios castamente, ele soltou minhas mãos e saiu do quarto, me deixando perdida em minhas dúvidas, minhas lembranças e nossos beijos.

 

******

Faltavam apenas 5 minutos para a virada do ano. Eu estava sentada em uma das cadeiras da varanda, com uma taça de vinho na mão e a cabeça em um lugar distante. As palavras de Theo ainda cercavam todos os meus pensamentos. E eu não sabia o que fazer com tudo o que ele havia me dito mais cedo.

Senti alguém sentar na cadeira à minha frente. Era meu pai. Ele suspirou:

– Você é igualzinha à sua mãe. Pensam demais, mesmo que não tenha necessidade de quebrar a cabeça. – Papai deu um pequeno gole de seu espumante. – Eu conversei com Theo antes de você chegar! Não, Linda. Me deixe terminar.

Encostei minhas costas de volta e foi a minha vez de bebericar minha própria taça. Dr. Alexander continuou:

– Ele fez o que muitos rapazes não fariam, filha. Theo pensou mais em você do que na relação de vocês e nele mesmo. Ele foi extremamente corajoso. Se colocou disposto a sentir uma dor que não precisava, apenas para que você seguisse o seu sonho. Odeio admitir, mas eu estou torcendo por vocês. – Meu pai suspirou e beijou minha testa. – Não deixe que o orgulho a impeça de ter o seu felizes para sempre, ok?!

Após beijar minha testa novamente, ele saiu e voltou para o lado de minha mãe.

– VAI COMEÇAR! – Berrou Nicholas, ajudando Tio Phin com os fogos de artifício.

10… 9… 8…

Levantei da cadeira, deixei minha taça na bancada e comecei a procurá-lo por toda a extensão da varanda.

7…6… 5….

Theo estava sentado na grama olhando para o céu estrelado daquela noite.

4… 3… 2…

Me joguei em seu colo. E antes que ele perguntasse alguma coisa, eu apenas o beijei.

Até porque não é todo dia que estou cara a cara com o meu felizes para sempre.

1!

 

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